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ChatGPT do Brasil: conheça algumas IAs nacionais e como elas funcionam

Chatbots e modelos de linguagem criados em território brasileiro ainda engatinham, mas trazem potencial para serviço público e conversas em português

Avatar do(a) autor(a): Nilton Cesar Monastier Kleina

schedule26/08/2025, às 21:00

updateAtualizado em 27/08/2025, às 09:51

O atual boom no setor de inteligência artificial (IA) é recente, mas algumas plataformas já se estabeleceram nesse mercado. É o caso do ChatGPT, o Claude e a Meta AI para usos variados, ou o Gemini e o Copilot embutidos em serviços de Google e Microsoft, respectivamente.

Grande parte desses gigantes, porém, nasceu e opera nos Estados Unidos — com raras exceções que furam a bolha do mercado, como a chinesa DeepSeek, que também já recuou em popularidade após um estouro inicial. Mas onde o Brasil se encaixa nesse setor tão disputado e dinâmico?

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O brasileiro está entre as pessoas que mais usam IAs generativas diariamente em todo o mundo, mas esses acessos são justamente nos serviços mais populares globalmente. O desenvolvimento de serviços nacionais é mais raro e os exemplos são poucos conhecidos, mas eles existem.

O TecMundo reuniu algumas IAs de origem nacional abaixo, listando apenas as que contam também com estrutura e base de dados próprias, para contar a origem de cada uma delas e o papel desse tipo de tecnologia na soberania de um país.

Amazônia IA

A Amazônia IA carrega até no nome o histórico de plataforma feita em solo nacional. Lançada em abril de 2025, ela é desenvolvida pela empresa brasileira WideLabs em parceria com a Oracle e a Nvidia, mas com código 100% feito por brasileiros.

Essa foi a primeira companhia a ter um grande modelo de linguagem (LLM) brasileiro, ainda em agosto de 2024, e treinou o serviço para ter um vasto conhecimento em cultura brasileira, dados, informações e referências nacionais. Segundo os responsáveis, o serviço usa energia limpa e renovável para operar, tem Infraestrutura local e “respeito às legislações vigentes no país e com respeito aos dados e privacidade dos seus usuários”.

Na prática, a Amazônia IA em forma de chatbot pode ser usada na área jurídica, educação, cultura, saúde, segurança e vendas. No começo de 2025, ela apresentou outros modelos com capacidades como transcrever áudios em português brasileiro e entender textos e imagens, além de uma versão compacta e de menor custo.

O acesso ao chatbot da Amazônia IA é gratuito e pode ser acessado neste link após um breve cadastro. Ela tem ainda um projeto chamado Amazônia IA 360, que adapta o chatbot sob medida para soluções empresariais com maior segurança.

Sabiá-3

Criação da empresa Maritaca AI, o Sabiá é um modelo de linguagem brasileiro cujo desenvolvimento começou em 2023, com pesquisadores da Unicamp que decidiram criar a própria empresa em Campinas.

Ele pode ser utilizado como um chatbot no site oficial sem custos ou então contratado via API em diversos modelos, com o preço variando de acordo com a quantidade de tokens e prompts usados — o ‘Sabiazinho’ é o mais acessível em preço.

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O serviço faz tradução, explicações, responde perguntas e gera textos criativos, além de suportar leitura de PDFs com até 100 páginas e permitir chat com entrada por comando de voz.

Treinado em “uma grande quantidade de dados públicos da internet, em sua maioria no idioma português”, o desempenho dele é comprovado em exames nacionais, mas tem dados um pouco mais desatualizados que concorrentes globais.

SoberanIA

A SoberanIA é um exemplo de projeto dessa indústria que nasce por iniciativa pública. Neste caso, foi o Governo do Piauí que lançou a plataforma em junho de 2025, com expectativa de que ela sirva de modelo para outros estados ou até o país inteiro.

Ele é um chatbot com propósitos sociais e institucionais, incluindo ajudar na prestação de serviços administrativos ou projetos de pesquisa, melhorar o atendimento ao cidadão e apoiar a formulação de políticas públicas.

Outro diferencial do projeto está na composição. A SoberanIA teve o modelo de linguagem "alimentado com bases de dados públicas, éticas, representativas e auditáveis". Esse dataset é conhecido como Jabuticaba, uma "coleção extensa e única de conteúdos em português, com mais de 130 bilhões de palavras".

A expectativa é de que a segunda etapa da iniciativa, a Soberano I, seja lançada até o fim de dezembro de 2025 com mais tokens e aplicações práticas — por enquanto, só é possível acessar a IA usando uma API de uso interno. As iniciativas planejadas incluem chat para a população, apoio na produção de documentos públicos e suporte a empreendedores do estado.

EscavAI

O EscavAI é uma plataforma desenvolvida pelo Escavador, um site de consulta de processos e outras informações sobre pessoas físicas ou jurídicas. Lançada em março de 2025, a plataforma é um serviço tanto de uso especializado para a área judicial quanto para pessoas interessadas ou envolvidas em processos.

Segundo a própria dona do serviço, o objetivo da IA é "descomplicar o universo jurídico" com respostas objetivas e sem abusar de termos da área. Ela pode ser usada para compreender a atual situação de um processo, resumir uma ação e tirar dúvidas sobre a lei em cada caso, além de criar documentos já no formato e com o vocabulário esperado.

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Atualizado com as últimas leis e jurisprudências brasileiras, o EscavAI tem um modelo de linguagem criado em parceria com a Unicamp e a NeuralMind, startup criada dentro da universidade. A própria plataforma, porém, reforça que ela não substitui "a importância e o trabalho de advogados e profissionais especializados".

É possível usar o EscavAI de duas maneiras: integrado aos produtos do Escavador e como serviço separado via chatbot, mais focado em oferecer orientação jurídica completa. O primeiro formato é gratuito, enquanto o segundo tipo de uso envolve planos de assinatura que começam em R$ 9,90 mensais.

Gaia

O Gaia é um exemplo diferente desta seleção: ele não é totalmente baseado em dados nacionais e nem existe por enquanto como um chatbot.

Desenvolvida pelo Instituto de Informática da Universidade Federal de Goiás (UFG) em parceria com a Associação Brasileira de Inteligência Artificial (Abria) e outros institutos, a Gaia foi baseada na arquitetura aberta Gemma 3 da Google, com pré-treinamento feito em uma base de dados só em português do Brasil.

O serviço poderá ser usado em geração de textos e tarefas que envolvam conversação (como resumo, responder perguntas e criar conteúdos em diferentes formatos). Nos experimentos, ela apresentou até 30% mais desempenho em tarefas realizadas no idioma quando comparado a versões equivalentes do ChatGPT.

Até o momento, o Gaia ainda não conta com uma interface pública, mas tem o código disponível no repositório Hugging Face para que desenvolvedores integrem a IA em outros ambientes. Além disso, o Tribunal de Contas do Estado já usa ela em caráter experimental, inclusive para análise automatizada de editais de prefeituras.

Qual a situação do mercado brasileiro de IAs?

Pelos exemplos listados acima, é possível notar que o Brasil ainda não é um polo de desenvolvimento no campo de IA, em especial pela complexidade envolvida nesse tipo de projeto. Porém, temos alguns projetos de bastante potencial no setor.

Além disso, há alguns padrões nas IAs que são criadas e treinadas a partir de conteúdos nacionais: elas tendem a se apresentar como mais indicadas para conversas e comandos em português do Brasil e tendem a nascer a partir de parcerias ou projetos de universidades.

O uso de IAs no setor público ainda é limitado, mas o potencial parece alto. O próprio governo brasileiro já sugeriu que poderia investir em uma IA nacional, seja para oferecer mais alternativas à população ou para reforçar a soberania no uso de tecnologias como chatbots. Além disso, a regulamentação do setor segue em trâmite no Legislativo.

Este é um artigo em constante atualização e pode receber adições de novos exemplos na medida em que eles forem anunciados ou apresentados ao TecMundo.

Quer se informar sobre as principais novidades do campo da IA? Fique ligado na seção especial sobre o tema no site do TecMundo!

Perguntas Frequentes

O que diferencia as IAs brasileiras das plataformas internacionais como ChatGPT ou Gemini?
As IAs brasileiras, como Amazônia IA, Sabiá-3 e SoberanIA, são desenvolvidas com foco no idioma português do Brasil e em contextos culturais e legais nacionais. Elas utilizam bases de dados locais, respeitam legislações brasileiras e, em alguns casos, operam com infraestrutura nacional e energia limpa. Já as plataformas internacionais, como ChatGPT e Gemini, são criadas majoritariamente nos Estados Unidos e treinadas com dados globais, o que pode limitar sua precisão em contextos brasileiros.
Quais são os principais usos das IAs nacionais atualmente?
As IAs brasileiras têm aplicações diversas. A Amazônia IA atua em áreas como educação, saúde, cultura e vendas; o Sabiá-3 é usado para tradução, geração de textos e leitura de PDFs; o EscavAI foca no setor jurídico, oferecendo explicações acessíveis sobre processos e leis; e a SoberanIA é voltada para serviços públicos, apoio à formulação de políticas e atendimento ao cidadão. Essas soluções mostram o potencial das IAs nacionais em setores estratégicos e sociais.
O que é um LLM e por que ele é importante para o desenvolvimento de IAs?
LLM é a sigla para "Large Language Model" (Grande Modelo de Linguagem), um tipo de inteligência artificial treinada com grandes volumes de texto para compreender e gerar linguagem humana. No contexto brasileiro, o desenvolvimento de LLMs próprios, como o da Amazônia IA e do Sabiá-3, é essencial para garantir soberania tecnológica, adaptar os sistemas ao português do Brasil e atender demandas locais com maior precisão.
Como a SoberanIA contribui para o setor público brasileiro?
A SoberanIA é uma IA criada pelo Governo do Piauí com foco em aplicações sociais e institucionais. Ela utiliza uma base de dados chamada Jabuticaba, composta por mais de 130 bilhões de palavras em português, e foi projetada para melhorar o atendimento ao cidadão, apoiar pesquisas e auxiliar na criação de políticas públicas. A expectativa é que ela sirva de modelo para outras iniciativas governamentais no país.
O que é o projeto Amazônia IA 360?
O Amazônia IA 360 é uma iniciativa da Amazônia IA voltada para soluções empresariais. Ele adapta o chatbot principal para atender demandas específicas de empresas, oferecendo maior segurança e personalização. Essa versão é ideal para organizações que buscam integrar inteligência artificial em seus processos internos com foco em privacidade e conformidade legal.
O Gaia já está disponível para o público geral?
Não. O Gaia ainda não possui uma interface pública como chatbot. Ele foi desenvolvido com base na arquitetura Gemma 3 da Google e treinado com dados exclusivamente em português do Brasil. Seu código está disponível no repositório Hugging Face para desenvolvedores, e ele já é utilizado experimentalmente pelo Tribunal de Contas do Estado de Goiás para análise de editais.
Como funciona o modelo de acesso ao EscavAI?
O EscavAI pode ser acessado de duas formas: gratuitamente, integrado aos produtos do site Escavador, ou por meio de um chatbot com foco em orientação jurídica, disponível por assinatura a partir de R$ 9,90 mensais. Ele foi desenvolvido em parceria com a Unicamp e a NeuralMind, e é atualizado com as últimas leis e jurisprudências brasileiras.
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