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The BRIEF

Lei Magnitsky, SWIFT e criptomoedas

As sanções financeiras do sistema tradicional perdem força frente ao poder da descentralização das criptomoedas.

Avatar do(a) autor(a): Piero Contezini - Colunista

schedule01/10/2025, às 18:00

updateAtualizado em 01/10/2025, às 18:09

Primeiro, deixe-me apresentar rapidamente por aqui: sou Piero Contezini, fundador e presidente executivo do Asaas. Junto com meu irmão, criamos uma fintech com foco em ajudar os negócios a automatizar seus processos, unindo serviços financeiros e software. A partir de agora, irei publicar por aqui artigos com foco em tecnologia e no mercado em que atuo diariamente.

Muito se tem falado sobre a lei Magnitsky, uma lei criada em 2012 e aprimorada em 2016 pelo governo americano para inibir que certas pessoas tenham acesso ao sistema financeiro dos Estados Unidos. Aqui, independentemente de mérito ou questões políticas, o interessante a entender dessa lei é que ela é efetivamente capaz de bloquear uma pessoa ou empresa de fazer praticamente qualquer transação comercial internacional.

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O motivo disso é simples: o governo americano impõe às empresas americanas e, àquelas que desejam fazer negócios com elas que estas tenham um processo de KYC (Know Your Customer) que valide, junto a uma lista publicada pela OFAC (Office of Foreign Assets Control), nomes com os quais não podemos ter relações comerciais.

Lembro que, em 2018, quando começamos a emitir cartões pelo Asaas, tivemos que implementar essa rotina: uma vez por mês, baixar uma lista de nomes, a maioria nomes árabes que nem sequer conseguíamos salvar no banco de dados na época devido ao alfabeto incompatível com o nosso, e validar tanto clientes novos quanto existentes. Caso identificássemos algum, teríamos que bloquear a conta de forma unilateral.

O controle disso era tão sério que tivemos que provar efetivamente para a bandeira em questão que os controles estavam funcionando perfeitamente, sob pena de também termos nosso contrato com eles rescindido imediatamente, impactando profundamente nosso negócio na época.

Somente agora, em 2025, pudemos entender de fato a utilidade deste procedimento e seu alcance. Mas uma coisa que me fez pensar muito desde que esse tema voltou à tona é o quanto, a cada dia, esse controle se torna menos eficaz no seu objetivo, tanto para o bem quanto para o mal.

Até recentemente, a forma mais utilizada para transferir recursos entre países era o SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication), uma rede belga de interconexão entre bancos de diferentes países.

Podemos pensar nele como um TED internacional, exatamente como o TED: lento, complexo e caro. Mas ele é de fato o padrão para essas movimentações e, uma vez que atende amplamente bancos americanos, ele também tem que seguir a lista da OFAC.

Até que o Satoshi (all hail Nakamoto!) criou o Bitcoin com seu paper lendário, uma moeda puramente descentralizada que por definição não tem qualquer relação com o sistema financeiro tradicional.

Apesar de ser publicamente rastreável dada a natureza da sua blockchain, o único identificador na rede é uma espécie de chave pública que pode ser guardada por qualquer indivíduo, impressa em papel e sem seu dono revelá-la através do uso da chave privada correspondente; não há como identificar quem tem sua posse.

Isso é tão profundo que o criador da moeda até hoje não foi identificado, mesmo estando entre as pessoas mais ricas do planeta atualmente, e estranhamente nunca ter usado 1 centavo da sua fortuna dentro da sua própria rede.

Bem, existem casos emblemáticos de juízes oficiando a “empresa Bitcoin", para sequestrar valores, cancelar contas, só para descobrir que não existe um dono, não existe um controlador, sequer existe uma empresa ou uma pessoa com capacidade de decidir como ela funciona. Tudo é feito de forma distribuída entre os detentores dos nós de mineração e validação de transações, estes também geralmente não identificados nominalmente.

Outras criptomoedas, como, por exemplo, o Monero, foram criadas com a ideia de garantir realmente que as transações não possam ser bloqueadas por qualquer entidade. Aqui vale um disclaimer: eu sou um purista, não acredito em outras criptomoedas que não o Bitcoin, independentemente da razão de existir delas, justamente porque elas são criadas por pessoas que podem ser identificadas, o que as torna vulneráveis uma vez que se tornem relevantes e mais expostas a influências externas.

Semana passada, eu estava nos Estados Unidos fazendo compras em um Walmart e pude ver uma pessoa extremamente simples depositar dinheiro em um caixa de ATM que vende bitcoins e os envia para qualquer carteira bastando a pessoa ter em posse o endereço (uma versão resumida da chave pública do usuário recebedor).

Na hora, me veio à cabeça o poder disso: independentemente de ser alguém sancionado, hoje uma pessoa pode criar sua carteira, guardar seus recursos e ficar completamente imune à Magnitsky ou qualquer outro mecanismo que tente congelar seus recursos.

Nesse momento, estamos vendo o surgimento de novas formas de organização econômica e social e, por mais paradoxal que seja, talvez dê abertura para justamente as pessoas que são opostas ao movimento capitalista, a possibilidade de movimentar e guardar recursos sem que sejam confiscados. Nem William Gibson foi capaz de prever no seu livro Neuromancer um cenário tão cyberpunk quanto o que estamos vivenciando. Como dizem por aí, o mundo não gira, ele capota.

Perguntas Frequentes

O que é a Lei Magnitsky e qual seu impacto no sistema financeiro?
A Lei Magnitsky, criada em 2012 e aprimorada em 2016 pelo governo dos EUA, permite bloquear o acesso de indivíduos e empresas ao sistema financeiro americano. Ela obriga empresas a validarem seus clientes com base em uma lista da OFAC (Office of Foreign Assets Control), impedindo transações com nomes sancionados. Isso afeta diretamente a capacidade de realizar transações comerciais internacionais.
Como o sistema SWIFT se relaciona com as sanções financeiras?
O SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication) é uma rede internacional de comunicação entre bancos, usada para transferências de recursos entre países. Por atender bancos americanos, ele também segue as restrições da lista da OFAC, o que o torna uma ferramenta eficaz para aplicar sanções financeiras internacionais.
Por que as criptomoedas desafiam a eficácia das sanções como a Lei Magnitsky?
Criptomoedas como o Bitcoin são descentralizadas e não dependem do sistema financeiro tradicional. Isso significa que não há uma entidade controladora que possa ser obrigada a bloquear transações. Além disso, os usuários podem manter suas chaves públicas anonimamente, dificultando a identificação e o congelamento de ativos, mesmo em casos de sanções.
O que é KYC e qual sua importância no cumprimento das sanções?
KYC (Know Your Customer) é um processo de verificação de identidade exigido de empresas financeiras para garantir que não estejam fazendo negócios com indivíduos ou entidades sancionadas. No caso do Asaas, por exemplo, era necessário validar mensalmente os nomes dos clientes com a lista da OFAC, sob risco de perder contratos com bandeiras de cartão.
Como funciona a privacidade nas transações com Bitcoin?
Apesar de todas as transações em Bitcoin serem públicas e registradas na blockchain, os usuários são identificados apenas por uma chave pública. Essa chave pode ser armazenada em papel e usada sem revelar a identidade do dono, desde que se tenha a chave privada correspondente. Isso garante um alto nível de anonimato.
Por que o autor considera o Bitcoin superior a outras criptomoedas?
O autor se declara um "purista" e acredita apenas no Bitcoin porque ele foi criado por uma entidade anônima e não possui um controlador identificável. Já outras criptomoedas, como o Monero, embora ofereçam maior privacidade, são criadas por pessoas identificáveis, o que as torna vulneráveis a pressões externas caso se tornem relevantes.
Qual foi o impacto prático da descentralização observado pelo autor?
Durante uma visita aos EUA, o autor observou uma pessoa simples comprando bitcoins em um caixa eletrônico e enviando para uma carteira digital. Isso evidenciou como qualquer pessoa, mesmo sancionada, pode hoje movimentar e guardar recursos sem interferência de governos ou instituições financeiras, graças à descentralização das criptomoedas.
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