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The BRIEF

Cada empresa tem seu mapa: por que um único modelo de trabalho nunca fará sentido

Maturidade do negócio, contexto financeiro e tipo de operação definem a melhor configuração, e não o hype do momento.

Avatar do(a) autor(a): Felippe Galeb

schedule01/12/2025, às 14:30

updateAtualizado em 04/02/2026, às 09:02

A discussão sobre “voltar ou não ao escritório” virou quase uma guerra cultural corporativa. O debate está quente, mas está sendo travado da forma errada. A pergunta não deveria ser qual modelo é o melhor, mas melhor para quem, quando e em qual contexto.

Minha opinião pode parecer a de alguém “isento”, mas não é: não existe modelo certo, existe modelo coerente. E coerência, aqui, depende menos da preferência individual e mais das lentes pelas quais cada empresa enxerga seu próprio negócio.

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Li recentemente uma frase que sintetiza bem este momento: não existe decisão 100% racional, mas 100% das decisões são racionalizadas. Cada organização constrói uma justificativa que faz sentido para si.

O modelo sempre parece “correto” dentro do racional que a empresa e seus líderes formaram: o estágio do negócio, a dinâmica do setor e dos concorrentes, a maturidade dos times, a cultura já estabelecida, a necessidade de velocidade, o estilo de tomada de decisão da liderança, entre infinitos motivos.

Para quem vê de fora, o mesmo modelo pode parecer totalmente equivocado, mas é porque está sendo julgado com outras lentes (ou lentes parciais). Na prática, as empresas não escolhem home office, presencial ou híbrido por ideologia; escolhem por operação, contexto e sobrevivência. E, nessa dinâmica, nenhum modelo é universal.

Eu mesmo precisei revisar convicções antigas. Antes da pandemia, eu acreditava que uma empresa só respirava cultura com todo mundo junto. Era quase dogma. Até que o remoto virou obrigação e mostrou que muito do que eu chamava de cultura era, na verdade, hábito.

Descobri que as pessoas crescem quando ganham tempo; que reuniões diminuem quando existe clareza; que criatividade não depende de CEP. Mas também vi o lado B: a solidão, a queda nos aprendizados informais, conversas difíceis transformadas em mensagens mal interpretadas.

O remoto pode ser libertador e, ao mesmo tempo, exigir maturidade, comunicação e intencionalidade. Esses são só alguns exemplos das inúmeras nuances que cada modelo impõe aos seus stakeholders.

Então estou dizendo que a resposta é “depende”? Sim, estou. E vejo isso diariamente na Olist. Lidero áreas que vivem contextos completamente diferentes, negócios que estão nascendo do zero, negócios em plena trajetória de crescimento e negócios maduros, com a previsibilidade típica de receita SaaS.

Em paralelo, há operações com dinâmica de volumetria, muito mais sensíveis a velocidade e coordenação. Existem times com culturas já consolidadas e outros em que novas lideranças estão imprimindo sua própria lógica de gestão.

Cada nuance altera a receita do bolo. E é justamente essa combinação de fatores que define a racionalização do que é “melhor” para aquele negócio e para seus stakeholders naquele momento.
Cada empresa está atravessando um momento distinto.

Há organizações contratando e integrando pessoas novas todos os meses, e nesses casos a convivência acelera confiança, reduz ruído e encurta a curva de aprendizagem. Há empresas reduzindo custos fixos e que encontram no remoto a possibilidade de continuar vivas. Outras dependem do contato humano porque o atendimento é o coração do negócio e olhar o cliente nos olhos faz parte da entrega de valor. Não existe um único caminho e tudo bem.

Com o tempo, aprendi que o debate não deveria ser sobre “onde trabalhar”, mas sobre “como trabalhar em cada contexto”. Há momentos em que a presença física acelera decisões, conexão e aprendizado; em outros, a flexibilidade do remoto aumenta foco, autonomia e tração. Já vi exemplos bons e ruins de ambos os modelos.

O que sustenta a performance não é o formato em si, e sim a clareza de prioridades, o nível de alinhamento com a liderança, a qualidade das relações e a confiança construída no dia a dia. O desenho do modelo de trabalho precisa conversar com a fase do negócio e com a operação, e não com uma crença abstrata de que um formato é, por natureza, melhor que o outro.

Perguntas Frequentes

Existe um modelo de trabalho ideal para todas as empresas?
Não. O texto defende que não existe um modelo de trabalho universalmente ideal. Cada empresa deve adotar o modelo mais coerente com seu contexto específico, considerando fatores como estágio do negócio, dinâmica do setor, maturidade dos times e estilo de liderança.
Por que o debate sobre voltar ao escritório está sendo feito da forma errada?
Porque a discussão tem se concentrado em qual modelo é "melhor" de forma genérica, quando a pergunta mais relevante seria: melhor para quem, quando e em qual contexto. O texto sugere que o foco deveria estar na coerência com a realidade de cada empresa, e não em tendências ou modismos.
O que significa dizer que uma decisão é racionalizada, mas não 100% racional?
Significa que, embora as decisões não sejam puramente racionais, elas são justificadas com argumentos que fazem sentido dentro da lógica de cada organização. Ou seja, as empresas constroem racionalizações para sustentar suas escolhas, mesmo que essas decisões envolvam fatores subjetivos ou contextuais.
Quais fatores influenciam a escolha do modelo de trabalho em uma empresa?
Diversos fatores influenciam essa escolha, como o estágio do negócio, o setor de atuação, a concorrência, a maturidade dos times, a cultura organizacional, a necessidade de velocidade e o estilo de liderança. Esses elementos moldam a decisão de adotar modelos presenciais, híbridos ou remotos.
O que a pandemia revelou sobre a cultura organizacional no trabalho remoto?
A pandemia mostrou que muitos aspectos considerados parte da cultura organizacional eram, na verdade, hábitos. Também revelou que o trabalho remoto pode ser libertador, oferecendo mais tempo e clareza, mas exige maturidade e boa comunicação para lidar com desafios como solidão e perda de aprendizados informais.
Por que o mesmo modelo pode parecer certo para uma empresa e errado para outra?
Porque cada empresa enxerga sua realidade por lentes diferentes. Um modelo pode fazer sentido dentro da lógica interna de uma organização, mas parecer equivocado para quem observa de fora com outros critérios ou valores. Isso reforça que não há uma fórmula única aplicável a todos.
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